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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Geografia Política e Geopolítica





O Que é Geopolítica? e Geografia Política? 



É frequente a confusão entre geografia política e geopolítica, que na verdade são imbricadas, se sobrepõem em grande parte, mas não se identificam totalmente. Existe uma história de cada um desses saberes que mostra suas origens, suas especificidades, embora em alguns momentos eles tenham se mesclado, se identificado.

A expressão geografia política existe há séculos. Há inúmeros livros dos séculos XVII, XVIII e XIX com esse título. Mas considera-se que geografia política moderna, pelo menos tal como a entendemos hoje -- isto é, como um estudo geográfico da política, ou como o estudo das relações entre espaço e poder -- nasceu com a obra Politische Geographie [Geografia Política], de Friedrich RATZEL, publicada em 1897. Ratzel, na verdade, não criou o rótulo "geografia política"; ela apenas redefiniu o seu conteúdo, apontando para o que seria um verdadeiro estudo geográfico da política, uma concepção de política que muito deve à leitura de Maquiavel. Antes dele era comum encontrar em obras com esse título a descrição dos rios ou montanhas de tal ou qual Estado - ou seja, qualquer fenômeno ligado ao Estado (o ser político por excelência) era tido como assunto de geografia política. Ratzel mostrou que o estudo da geografia política só vai se preocupar com o meio ambiente - as características "naturais" do território, por exemplo (localização, formato, proximidade do mar, etc.) - desde que isso tenha relações com a vida política. Ele procurou estabelecer uma série de temas pertinentes à geografia política, que continuam a ser atuais (embora outros tenham surgido posteriormente): o que é o Estado e quais as suas relações com o território, soberania e território, o que é política territorial (uma expressão criada por ele), a questão das fronteiras, o que significa uma grande potência mundial, etc. 

Em síntese, esse geógrafo alemão não foi o primeiro autor a empregar esse rótulo, geografia política, nem mesmo o primeiro a escrever sobre o assunto - a questão do espaço geográfico na política. Essa análise a respeito da dimensão geográfica ou espacial da política é bastante antiga. Podemos encontrá-la em Aristóteles, em Maquiavel, em Montesquieu e em inúmeros outros filósolos da antiguidade, da Idade Média ou da época moderna. Mas normalmente essa preocupação com a dimensão espacial da política -- tal como, por exemplo, a respeito do tamanho e da localização do território de uma cidade-Estado, em Aristóteles; ou sobre a localização e a defesa da fortaleza do príncipe, em Maquiavel; ou a ênfase na importância da geografia (física e principalmente humana) para a compreensão do "espírito das Leis" de cada Estado, em Montesquieu -- era algo que surgia en passant, como um aspecto meio secundário da realidade, pois o essencial era entender a natureza do Estado ou das Leis, os tipos de governo ou as maneiras de alcançar e exercer eficazmente o poder. Com Ratzel inicia-se um estudo sistemático da dimensão geográfica da política, no qual a espacialidade ou a territorialidade do Estado era o principal objeto de preocupações. E com Ratzel a própria expressão "geografia política", que era comumente empregada nos estudos enciclopédicos dos séculos XVII, XVIII e mesmo XIX (as informações sobre tal ou qual Estado: sua população, contornos territoriais, rios, montanhas, climas, cidades principais, etc.), ganha um novo significado. Ela passa a ser entendida como o estudo geográfico ou espacial da política e não mais como um estudo genérico (em "todas" as suas características) dos Estados ou países. 

A palavra geopolítica, por sua vez, foi criada no início do século XX, mais precisamente em 1905, num artigo denominado "As grandes potências", escrito pelo jurista sueco Rudolf KJELLÉN. (Mas atenção: a palavra geopolítica é que foi criada por Kjellén, pois não há dúvida que essa temática é bem mais antiga, ou seja, as grandes preocupações geopolíticas não surgiram no início do século XX (preocupações sobre o que é e quem é uma potência mundial, como se dá a disputa mundial pelo poder entre os Estados, que estratégias seriam adequadas para tal ou qual Estado tornar-se a potência regional nesta ou naquela parte do globo, etc.). Isto é, já existia anteriormente juízos ou análises a respeito do poderio de cada Estado, das grandes potências mundiais ou regionais, com a importância ou o uso do espaço geográfico na guerra ou no exercício do poder estatal. 

Normalmente se afirma -- em quase todas as obras sobre "história da geopolítica" -- que os geopolíticos clássicos, ou os "grandes nomes da geopolítica", foram H.J. MacKinder, A.T. Mahan, R. Kjellén e K. Haushofer. Desses quatro nomes, dois deles (o geógrafo inglês Mackinder e o almirante norte-americano Mahan) tiveram as suas principais obras publicadas antes da criação dessa palavra geopolítica por Kjellén e, dessa forma, nunca fizeram uso dela. O outro autor, o general alemão Karl Haushofer, foi na realidade quem popularizou a geopolítica, devido às circunstâncias (ligações, embora problemáticas, com o nazismo e possível contribuição indireta para a obra Mein Kampf, de Hitler), tornando-a tristemente famosa nos anos 1930 e 40, em especial através da sua Revista de Geopolítica [Zeitschrift für Geopolitik], editada em Munique de 1924 a 44 e com uma tiragem mensal que começou com 3 mil e chegou a atingir a marca dos 30 mil exemplares, algo bastante expressivo para a época. 

A geopolítica, enfim, conheceu um período de grande expansão no pré-guerra, na primeira metade do século XX, tendo se eclipsado -- ou melhor, ficado no ostracismo -- depois de 1945. Ela sempre se preocupou com a chamada escala macro ou continental/planetária: a questão da disputa do poder mundial, que Estado (e por quê) é uma grande potência, qual a melhor estratégia espacial para se atingir esse status, etc. Existiram "escolas (nacionais) de geopolítica", em especial dos anos 1920 até os anos 1970, em algumas partes do mundo, inclusive no Brasil. Não escola no sentido físico (prédio e salas de aula), mas sim no sentido de corrente de pensamento, de autores -- mesmo que um tenha vivido distante do outro, no espaço ou às vezes até no tempo -- com uma certa identificação: no caso da geopolítica brasileira, ela consistiu principalmente no desenvolvimento de um projeto ("Brasil, grande potência") que se expressa como uma estratégia (geo)política e militar com uma clara dimensão espacial. A natureza pragmática, utilitarista (e para o Estado, único agente visto como legítimo) ou de "saber aplicável" sempre foi uma tônica marcante na geopolítica. Ela nunca se preocupou em firmar-se como um (mero?) "conhecimento" da realidade e sim como um "instrumento de ação", um guia para a atuação de tal ou qual Estado. 

A partir de meados dos anos 1970 a geopolítica sai do ostracismo. Ela volta a ser novamente estudada (a bem a verdade, ela nunca deixou de ser, mas de 1945 até por volta de 1975 esteve confinada em pequenos círculos, em especial militares). Só que agora, ao invés de ser vista como "uma ciência" (como pretendia Kjellén) ou como "uma técnica/arte a serviço do Estado" (como advogavam inúmeros geopolíticos, inclusive Haushofer), ela é cada vez mais entendida como "um campo de estudos", uma área interdisciplinar enfim (tal como, por exemplo, a questão ambiental). Em várias parte do globo criaram-se -- ou estão sendo criados -- institutos de estudos geopolíticos e/ou estratégicos, que via de regra congregam inúmeros especialistas: cientistas políticos, geógrafos, historiadores, militares ou teóricos estrategistas, sociólogos e, como não podia deixar de ser (na medida em que a "guerra" tecnológica-comercial hoje é mais importante que a militar) até mesmo economistas. 

Enfim, a palavra geopolítica não é uma simples contração de geografia política, como pensam alguns, mas sim algo que diz respeito às disputas de poder no espaço mundial e que, como a noção de PODER já o diz (poder implica em dominação, via Estado ou não, em relações de assimetria enfim, que podem ser culturais, sexuais, econômicas, repressivas e/ou militares, etc.), não é exclusivo da geografia. (Embora também seja algo por ela estudado). A geografia política, dessa forma, também se ocupa da geopolítica, embora seja uma ciência (ou melhor, uma modalidade da ciência geográfica) que estuda vários outros temas ou problemas. Exemplificando, podemos lembrar que a geografia também leva em conta a questão ambiental, embora esta não seja uma temática exclusivamente geográfica (outras ciências -- tais como a biologia, a geologia, a antropologia, a história, etc. -- também abordam essa questão). Mas a geografia -- da mesma forma que as outras ciências mencionadas -- não se identifica exclusivamente com essa questão, pois ela também procura explicar outras temáticas que não são rigorosamente ambientais tais como, por exemplo, a história do pensamento geográfico, a geografia eleitoral, os métodos cartográficos, etc.

Esquematizando, podemos dizer que existiram ou existem várias interpretações diferentes sobre o que é geopolítica e as suas relações com a geografia política. Vamos resumir essas interpretações, que variaram muito no espaço e no tempo, em quatro visões:

1. "A geopolítica seria dinâmica (como um filme) e a geografia política estática (como uma fotografia)". Esta foi a interpretação de inúmeros geopolíticos anteriores à Segunda Guerra Mundial, dentre os quais, podemos mencionar Kjellén, Haushofer e vários outros colaboradores da Revista de Geopolítica, além do general Golbery do Couto e Silva e inúmeros outros militares no Brasil. Segundo eles, a geopolítica seria uma "nova ciência" (ou técnica, ou arte) que se ocuparia da política ao nível geográfico, mas com uma abordagem diferente da geografia: ela seria "mais dinâmica" e voltada principalmente para a ação. Eles viam a geografia como uma disciplina tradicional e descritiva e diziam que nela apenas colhiam algumas informações (sobre relevo, distâncias, latitude e longitude, características territoriais ou marítimas, populações e economias, etc.), mas que fundamentalmente estavam construindo um outro saber, que na realidade seria mais do que uma ciência ou um mero saber, seria um instrumento imprescindível para a estratégia, a atuação político/espacial do Estado. Como se percebe, foi uma visão adequada ao seu momento histórico -- não podemos esquecer que o mundo na primeira metade do século XX, antes da Grande Guerra, vivia uma ordem multipolar conflituosa, com uma situação de guerra latente entre as grandes potências mundiais -- e à legitimação da prática de quem fazia geopolítica naquele momento. Ela também foi coeva e tributária de todo um clima intelectual europeu -- especialmente alemão -- da época, que fustigava o conhecimento científico ( a "ciência real", que era contraposta a uma "ciência ideal" ou "novo saber", que deveria contribuir para um "mundo melhor") pela sua pretensa "desconsideração pela vida concreta, pelas emoções, pelos sentimentos". 

2. "A geopolítica seria ideológica (um instrumento do nazi-fascismo ou dos Estados totalitários) e a geografia política seria uma ciência". Esta foi a interpretação de alguns poucos geógrafos nos anos 1930 e 40 (por exemplo: A. Hettner e Leo Waibel) e da quase totalidade deles (e também de inúmeros outros cientistas sociais) no pós-guerra. Um nome bastante representativo desta visão foi Pierre George, talvez o geógrafo francês mais conhecido dos anos 50 aos 70, que afirmava que a geopolítica seria uma "pseudo-ciência", uma caricatura da geografia política. Esta visão foi praticamente uma reação àquela anterior, que predominou anteriormente, no período pré-Segunda Guerra Mundial. Como toda forte reação, ela caminhou para o lado extremo do pêndulo, desclassificando completamente a geopolítica (da qual "nada se aproveita", nos dizeres de inúmeros autores dos anos 50 e 60) e até mesmo se recusando a explicá-la de forma mais rigorosa. 

3. "A geopolítica seria a verdadeira (ou fundamental) geografia". Esta foi a interpretação que Yves Lacoste inaugurou com o seu famoso livro-panfleto A Geografia - isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra, de 1976, e que serviu como ideário para a revista Hérodote - revue de géographie et de géopolitique. Nessa visão, a geografia de verdade (a "essencial" ou fundamental) não teria surgido no século XIX com Humboldt e Ritter, mas sim na antiguidade, junto com o advento dos primeiro mapas. O que teria surgido no século XIX seria apenas a "geografia dos professores", a geografia acadêmica e que basicamente estaria preocupada em esconder ou encobrir, como uma "cortina de fumaça", a importância estratégica da verdadeira geografia, da geopolítica enfim. A geopolítica -- ou geografia dos Estados maiores, ou geografia fundamental -- existiria desde a antiguidade na estratégia espacial das cidades-estados, de Alexandre o Grande, por exemplo, de Heródoto com os seus escritos (obra e autor que, nessa leitura enviesada, teria sido um "representante do imperialismo ateniense"). Esta interpretação teve um certo fôlego -- ou melhor, foi reproduzida, normalmente por estudantes e de forma acrítica -- no final dos anos 1970 e nos anos 80, mas acabou ficando confinada a um pequeno grupo de geógrafos franceses que, inclusive, em grande parte se afastaram do restante da comunidade geográfica (ou mesmo científica) daquele país. Existe uma visível falta de evidências nessa tese -- de comprovações, e mesmo de possibilidade de ser testada empiricamente (inclusive via documentos históricos) -- e, na realidade, ela surgiu mais como uma forma de revalorizar a geografia, tão questionada pelos revoltosos do maio de 1968, tentando mostrar a sua importância estratégica e militar. 

4. "A geopolítica (hoje) seria uma área ou campo de estudos interdisciplinar". Esta interpretação começa a predominar a partir do final dos anos 1980, sendo quase um consenso nos dias atuais. Não se trata tanto do que foi a geopolítica e sim do que ela representa atualmente. E mesmo se analisarmos quem fez geopolítica, os "grandes nomes" que teriam contribuído para desenvolver esse saber, vamos concluir que eles nunca provieram de uma única área do conhecimento: houve juristas (por exemplo, Kjellén), geógrafos (Mackinder), militares (Mahan, Haushofer) e vários outros oriundos da história, da ciência política, da economia, da engenharia, etc. Não tem nenhum sentido advogar o monopólio desse tipo de estudo -- seria o mesmo que pretender deter a exclusividade das pesquisas ambientais! --, já que com isso estaríamos desconhecendo a realidade, o que já se fez e o que vem sendo feito na prática. Existem trabalhos recentes sobre geopolítica, alguns ótimos, oriundos de geógrafos, de cientistas políticos (Luttuak...), de historiadores (H. Kissinger, P. Kennedy...), de sociólogos (Huntington...)de militares, etc. E ninguém pode imaginar seriamente que num instituto ou centro de estudos estratégicos e/ou geopolíticos -- onde se pesquise os rumos do Brasil (ou de qualquer outro Estado-nação, ou mesmo de um partido político) no século XXI, as possibilidades de confrontos ou de crises político-diplomáticas ou econômicas, as estratégias para se tornar hegemônico no (sub)continente, para ocupar racionalmente a Amazônia, etc. -- devam existir apenas geógrafos, ou apenas militares, ou apenas economistas ou juristas. Mais uma vez podemos fazer aqui uma ligação com o nosso tempo, com o clima intelectual do final do século XX e inícios do XXI. A palavra de ordem hoje é interdisciplinaridade (ou até transdisciplinaridade), pois o real nunca é convenientemente explicado por apenas uma abordagem ou uma ciência específica. O conhecimento da realidade, enfim, e mesmo a atuação nela com vistas a um mundo mais justo, é algo muito mais importante do que as disputas corporativistas. 


Texto escrito por
José Wiliam Vasentini
Fonte:  http://www.geocritica.com.br/geopolitica.htm
 


quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Geoprocessamento a serviço da Gestão Municipal



Veja por que o geoprocessamento está sendo considerada uma verdadeira vedete em muitas prefeituras brasileiras.

        Técnica relativamente recente no País e no mundo, sobretudo no que tange à possibilidade de execução de análises espaciais automatizadas, o geoprocessamento evoluiu com o avanço tecnológico da informática e gradativamente insere-se no universo das prefeituras, assim como ocorreu com a implantação dos microcomputadores.
         A conquista de adeptos tem acontecido rapidamente. Isso porque o geoprocessamento pode ser aplicado a diversos temas nas prefeituras, sempre com o mesmo objetivo: o apoio à gestão municipal. Como a natureza de atuação de uma prefeitura é essencialmente ampla, a aplicação do geoprocessamento segue a mesma regra, podendo servir como suporte a uma série de atividades como o controle de zoonoses , a definição de número de vagas de uma escola ou mesmo a análise do melhor roteiro para atender a uma situação de emergência. A dinâmica muito ativa nas cidades, especialmente naqueles núcleos urbanos mais densos e complexos, também está na mira dos projetos de geoprocessamento, que oferecem instrumental para acompanhar as alterações do meio. Há uma lista infinita de temas discutíveis, além de técnicas específicas para o atendimento de cada uma das necessidades de aplicação do geoprocessamento num município.
         A oferta de um sistema com grande capacidade de armazenamento e gerenciamento de dados é extremamente importante para gestores municipais. E, embora o cadastramento de imóveis venha, tradicionalmente, nas prefeituras brasileiras, ocorrendo apenas com o objetivo de aplicar taxas urbanas e rurais, a modernização do instrumental de trabalho e a municipalização de uma série de serviços oferecidos pelo Estado trouxeram à tona a necessidade de implantação de um cadastro único, por meio do qual todos os setores de uma prefeitura possam atuar. Este cadastro deveria estar preparado e devidamente atualizado para oferecer respostas a questões como:

• Quantas pessoas moram na Rua X, número 100?
• Esta família tem algum deficiente?
• Existe algum idoso que seja atendido pelo sistema de saúde municipal?
• Qual foi o último atendimento de saúde oferecido a algum morador deste endereço?
• Há algum atendimento de saúde agendado para este endereço? Qual e quando?
• Este imóvel foi vistoriado pela equipe de controle de zoonoses? Quando?
• Há algum animal de estimação nesta residência?
• Há crianças na escola e qual a faixa etária destas crianças?
• Esta residência tem quantos metros quadrados construídos?
• Qual o zoneamento do lote? Qual o tamanho deste lote?
• Esta família está inscrita em algum programa habitacional?
• Qual a atividade exercida pelas pessoas da família? Qual a renda familiar?
• Esta família está inscrita em algum programa de bolsa para incremento da renda?
• Qual o valor do IPTU cobrado?
• Este imóvel tem dívida na prefeitura?
• Este imóvel tem registro no Cartório de Registro de Imóveis?
• Quem é o proprietário do imóvel?

            Apesar de parecerem questões fáceis para uma prefeitura, nem sempre é simples obter as respostas requeridas. Isso ocorre porque os cadastros são corriqueiramente individualizados por temas.
           Assim, cada secretaria municipal possui seu próprio cadastro, com diferentes níveis de atualização e de complexidade e também com diferentes dados. Isso demanda buscas sequenciais em cadastros que não possuem conexão alguma. Esta falta de conectividade e a burocracia inerente à máquina municipal prejudicam a velocidade de resposta a estas questões e a tantas outras – muito importantes para a agilidade e tomada de decisão e que deveriam ser rapidamente respondidas por qualquer técnico servidor público.
Porém, mais complicado ainda seria encontrar respostas para as seguintes perguntas:

A dinâmica muito ativa nas cidades, especialmente naqueles núcleos urbanos mais densos e complexos, também está na mira dos projetos de geoprocessamento, que oferecem instrumental para acompanhar as alterações do meio. Há uma lista infinita de temas discutíveis além de técnicas específicas para o atendimento de cada uma das necessidades de aplicação do geoprocessamento num município.
• Qual a escola mais próxima da rua X, número 100?
• As crianças que vivem neste endereço estão realmente frequentando a escola mais próxima? Se não, por que estudam longe de casa?
• Qual o hospital mais próximo deste endereço? E o posto de saúde?
• O posto de saúde mais próximo atende às necessidades desta família?
• A região de entorno deste endereço tem bom índice de empregabilidade ou as pessoas precisam se deslocar para outras regiões para encontrar emprego?
• Há desempregados na família? E deficientes?
• Quais as linhas de ônibus que as levam para seus trabalhos? Quantos ônibus circulam diariamente nestas linhas?
• Qual a qualidade ambiental do bairro?
• Este imóvel está em área de risco de escorregamento ou de alagamento?
• Em que porção do município este imóvel está localizado?
•Há padarias, supermercados e farmácias perto desta casa?
• Quem são os vizinhos do número 100?

         Muitas outras perguntas como estas ainda poderiam ser feitas. Todas voltadas para localização do imóvel citado em relação aos demais serviços e imóveis. São perguntas que também fazem parte do dia a dia de trabalho numa prefeitura, mas que dificilmente poderiam ser respondidas com o uso de cadastros alfanuméricos sem representação espacial. Assim, estas perguntas poderiam ser respondidas por meio de um cadastro multifinalitário computacional, ferramenta do geoprocessamento. Ou seja, sua capacidade de armazenamento e gerenciamento de dados, associada ao posicionamento dos objetos que representa, é importante instrumento para gestores municipais. Desse modo, por meio dessa técnica surge “o sol, entre as trevas ” (“a solução, entre tantas perguntas”). Ao geoprocessamento são atribuídas as responsabilidades de solucionar as questões anteriormente colocadas, entre muitas outras que serão feitas.
         O geoprocessamento também pode ser utilizado como porta de comunicação direta com os munícipes que procuram atendimento nas prefeituras. Com alguns toques e digitação, por exemplo, um servidor público, perguntado sobre em qual escola uma moradora deve matricular seu filho, terá uma resposta concisa e suficientemente clara a oferecer, baseada em dados reais; além de outras orientações que a munícipe pode nem mesmo estar requisitando, mas que lhes sejam úteis. Na tela do computador, o servidor público atendente procura o endereço da moradora e por análise de proximidade detecta a escola a indicar, avaliando em seguida a existência de vagas disponíveis para matrícula e a oferta de transporte público disponível para o trajeto, caso não haja transporte escolar. Nessa mesma tela o atendente terá condições de observar ainda qual a situação de atendimento de saúde oferecido à família, por exemplo.
            Técnica essencialmente multidisciplinar, o geoprocessamento necessita de uma série bem variada de profissionais. Contudo, é importante lembrar que a técnica exige treinamento específico para que sejam observadas as regras construtivas dos bancos de dados e da representação espacial, a fim de garantir a eficácia do sistema como um todo. A geração de mapas também deve respeitar as regras da cartografia sistemática e temática, que não podem ser esquecidas nunca.
            Todos esses elementos fazem da atuação no geoprocessamento municipal, um campo muito fértil para o geógrafo profissional, cuja formação é permeada pelo conhecimento das técnicas de cartografia, de planejamento e de análises socioeconômica e ambiental, entre outras. Hoje em dia, muitos geógrafos já atuam neste ramo e a potencialidade do mercado de trabalho, para quem se interessar por esta tecnologia, é cada vez maior, principalmente porque se trata de um universo de mais de 5.000 municípios no país.
            Todos esses elementos fazem da atuação no Geoprocessamento Municipal, um campo muito fértil para o profissional de geografia, cuja formação é permeada pelo conhecimento das técnicas de cartografia, de planejamento e de análises sócio- econômica e ambiental, entre outras. Hoje em dia, muitos geógrafos já atuam neste ramo e a potencialidade deste mercado de trabalho, para quem se interessar por esta tecnologia, é cada vez maior.

Fonte:
*Jorge Raffo é professor do Departamento de Geografia – FFLCH – USP. Contato: jgraffo@usp.br **Luciana Dias do Nascimento é geógrafa e Ms.c em Geografia Física pela USP. Atua em geoprocessamento destinado ao cadastro municipal. Contato: luciana_nascimento@yahoo.com

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